<$BlogRSDUrl$>


quinta-feira, janeiro 25, 2007


POIS É...

Aí estão os onze novos contos que prometi ainda hoje. Espero que todos entendam, leiam e gostem, apesar dos variados estilos e combinações.
Até o próximo conto!


COELHOS IRREAIS

Não posso, de jeito nenhum, tomar suco de manga com leite.
Uns dizem que dá azia, outros dizem que dá caganeira. Mas pra mim, tem quase o mesmo efeito de um chá de cogumelos: funciona mesmo como alucinógeno.
Da última vez (hoje pela manhã), por causa do suco, conheci um coelho falante. Sendo falante, fiz sem pestanejar inúmeras perguntas que sempre quis fazer para um coelho. Perguntas que ele respondeu pacientemente, e fiquei sabendo de coisas como:
- Os olhos vermelhos são realmente o resultado do fumo de maconha (que os coelhos cultivam, ilegalmente, dentro de suas tocas);
- Pernalonga e Roger Rabbit não são parentes (aliás, como é que eu fui lembrar do Roger Rabbit?);
- O coelho da páscoa é um homossexual muito bem-sucedido do ramo de alimentício (com grandes e lucrativos contratos com Nestlé, Garoto e outras empresas de renome);
- Cenouras realmente fazem bem para a visão, mas isso não impede que uma minoria absoluta dos coelhos tenha que consultar um oculista periodicamente.
Mas, como algumas coisas a gente tem que aprender na prática, nada como um pequeno machado, alguns ramos de coentro e um coelho irreal para comprovar que guisado de coelho é realmente muito bom. Mas pata de coelho definitivamente não dá sorte, já que fui péssimo em três entrevistas de emprego que participei (acredito que o cheiro de podre daquela pata de coelho contribuiu para esse resultado).
E é por isso que eu não tomo mais suco de manga com leite.


ANTES ELE DO QUE EU

Ou

SERÁ QUE VOCÊ CONSEGUE ENTENDER?


Capítulo 1
E todo mundo aqui, no enterro do Ernesto. A maioria chorando, e quase todo o resto com os olhos cheios de lágrimas.
Vou confessar: o cara era gente boa. Sei lá, não tinha muito papo com ele, mas eu sempre via ele, de camisa e gravata, voltando do trabalho e parando no barzinho para tomar umas cervejas. Falava alto, era o mais tagarela da mesa, jogador de dominó e tudo mais. Voltava pra casa, depois de uma hora lá, tranquilo, sem ficar bêbado nem nada. O cara era professor de não sei o que de História, dava palestras em faculdades, tinha uma pancada de livro escrito. Pelo menos alguma coisa dele ficou por aqui, além da mulher e da filha de três anos.
A Zulmira é que era o problema. Ô mulher sacana, o marido nem abriu a porta de casa ainda e ela já vinha com todo fogo pra cima de mim. Maldito dia em que fui dar bola! Mas não tem como, a danada é bonita e gostosa mesmo. Eu não consigo largar, e nem quero. Mas o marido dela desconfiando, ela só driblando, mas eu tinha na minha cabeça que aquilo ainda não ia acabar bem.


Final 1 - Capítulo 1
Azar pra uns, sorte pra outros. Quando vi no chão um papel com toda uma preparação de palestra, um palavrório que eu não entendi nada, tive certeza que era o Ernesto. O que eu tinha que fazer (e eu ia mesmo, juro) era devolver quando pudesse. Então, deixei o papel no bolso da calça, enquanto fui ?levar um papo? com a Zulmira na casa dela. Quando o Lelo Maluco (marido da Zulmira) viu só o meu vulto saindo pela janela (vi que ele tava chegando e saí correndo sem pensar duas vezes), achou o papel no chão (que eu deixei cair, não deu nem tempo de pegar), e ele também não teve dúvidas de quem era: foi direto no bar, e deu três tiros no coitado do Ernesto.
Pena, eu sinto. Tô pegando a Zulmira ainda, ela tá cada vez pior, já que o Lelo Maluco tá na cadeia (não é a primeira vez, acho que vai apodrecer por lá agora). E o Ernesto, ali, dentro do caixão, dando uma esticada nas canelas.
Mas antes ele do que eu.

Capítulo 2
E não acabou bem mesmo. Como toda boa história de corno, o Ernesto (que é o marido da Zulmira) chegou mais cedo em casa naquele dia, já entrou no quarto dizendo que tava mal, e me pegou lá, tentando entrar debaixo da cama (ô cama baixinha, se fosse um pouco mais alta podia ter sido diferente, droga). Ele devia estar mal mesmo, porque saiu do quarto sem falar nada, e voltou rapidinho, eu não tinha nem colocado as calças ainda, e ele com aquela arma na mão.

Final 1 - Capítulo 2
Nessa hora, pra minha surpresa ficar maior ainda, sai o Lelo Maluco de dentro do armário (a Zulmira era mais sacana do que eu pensava, tava pegando o Lelo Maluco também). Já com uma arma na mão, ele encosta na cabeça do Ernesto (como o Lelo Malulo tava do lado, o Ernesto não teve tempo nem de reagir). E deu um tiro no coitado.
Pensando bem agora, acho que eles (a Zulmira e o Lelo Malulo) iam preparar tudo pra parecer que o Ernesto tinha me matado e depois se matado. Mas não dei nem tempo pra tentarem me matar, eu já tinha corrido à toda pra rua. O Lelo Maluco ainda tentou ir atrás, mas eu, que já corro bem, no desespero acho que bati uns recordes.
Os dois (Zulmira e Lelo Maluco) tão presos. E pior, o Ernesto, coitado (ele deve ter pego a arma pra me matar naquela hora, mas não acho ruim, não. Dor de corno deve doer mesmo, pelo menos ele foi macho de tomar uma atitude), mortinho da Silva ali no caixão.
Mas antes ele do que eu.

Capítulo 3 - versão 1
Eu já me preparei pro pior: já tava vendo que eu ia ficar todo esburacado. Mas não é que o cara era gente boa mesmo? (ou então era um cagão que não tinha coragem de me matar, agora não sei bem). Deu a arma na mão da Zulmira, e disse: "você é quem vai ter que matar ele, agora". Eu pensei: "putz, me ferrei do mesmo jeito!". Mas eu nunca ia esperar que a Zulmira ia fazer o que fez.
Bem, acho que só o fato de eu comentar do enterro dele já diz tudo. Ela deu um belo tiro no peito dele, ele demorou alguns segundos pra morrer, ainda. Eu fiquei bobo, parado na hora. Quase tinha me mijado todo quando vi a arma na mão do cara, e ela atira no infeliz.

Final 1 - Capítulo 3 - versão 1
Ela tá na cadeia, agora. E eu aqui, no enterro dele, um cara gente boa, mas que além de corno tinha uma mulher que não valia nada (mas como é boa de cama...).
Mas antes ele do que eu.

Final 2 - Capítulo 3 - versão 1
Nessa hora, sai todo assustado o Lelo Maluco, de dentro do armário dela (a Zulmira era mais sacana do que eu pensava, tava pegando ele também). Os dois já tinham tramado tudo, pois ele saiu com uma arma na mão. Acho que eles iam matar o marido dela e eu depois, fazendo com que parecesse que ele (o Ernesto) atirou em mim e se matou. Mas o improviso deles foi bem feito, também.
Olhando para o Lelo Maluco, ainda, senti uma pancada na cabeça (depois fiquei sabendo que a Zulmira pegou o cabo de uma vassoura e me acertou), e tudo ficou escuro. Acordei na delegacia, preso. Armaram tudo para que parecesse que eu atirei, e não teve nenhuma prova no quarto que mostrasse que a coisa fosse diferente (e nem que o Lelo Maluco estava lá, o desgraçado tinha até álibi pronto).
O advogado conseguiu me deixar solto enquanto não chega o julgamento, por isso ainda pude vir no enterro. Mas não tenho esperança de não ser preso, vou ficar um bom tempo lá. E a Zulmira tranquila, vai fugir com o Lelo Maluco, ganhar a bolada do seguro de vida e mais a pensão. Meu alívio é que, pelo menos, o corpo no caixão é outro.
Antes ele do que eu.

Capítulo 3 - versão 2
Ainda bem que foi rápido. Se demorasse um pouco eu ia me borrar todo (e sem calças). Mas ele botou a arma na cabeça (na dele, não na minha) e atirou, sem esperar o grito da Zulmira, que saiu logo depois.

Final 1 - Capítulo 3 - versão 2
A coitada devia gostar mesmo do cara, apesar de tudo. Não aguentou o tranco de ver ele se matar, e tá lá no hospício agora. Não fala mais nada, dizem que ela chora o dia inteiro e grita a noite toda. O Ernesto, bem vestido como sempre, mas com camisa de madeira agora.
Mas antes ele do que eu.

Final 2 - Capítulo 3 - versão 2
A coitada devia gostar mesmo do cara, apesar de tudo. Foi pro lado dele, já morto e ensanguentado no chão, ajoelhou e começou a chorar. Até pensei em ir até lá, consolar a coitada, mas não deu nem tempo: pegou a mão do marido morto, com o revólver ainda, e me acertou um tiro em cheio na cabeça (que mira tinha a danada, não sei até agora como ela conseguiu). Claro, morri na hora.
O pior é que ela disse pra polícia que o marido me matou e depois se matou. É claro, todo mundo acreditou. E ela taí, soltinha, e mais safada do que nunca, chorando no enterro e vivendo de pensão. Até pro policial que foi na casa dela a sacana deu. E eu, morto, só porque dei uns pegas nela. Vai entender as coisas da vida (ou da morte)...


ATLETISMO PARA OBESOS

Todos os dias, cruzavam-se naquela praça. Com roupas de atletismo, correndo, é claro, cada um para o seu lado. Um achava que o outro já corria por ali antes, mas não sabiam que haviam começado no mesmo dia.
Um tinha reparado bem no outro. Não chegavam, descaradamente, a olhar indiscretamente um para o outro, com desejo ou coisa do tipo. Notaram-se apenas, e gostaram do que viram. Mas a timidez impedia uma aproximação diferente logo de início. Principalmente pelo fato de não se sentirem bem consigo mesmos, pois tanto ele quanto ela estavam gordinhos, acima do peso.
Após duas semanas, cruzando-se todos os dias na mesma praça (é incrível como saíam sempre no mesmo horário, e mantinham o mesmo ritmo), ele tomou coragem, e arriscou um ?oi?. Ela abaixou a cabeça, visivelmente surpresa e vermelha de vergonha, e ele arrependeu-se logo em seguida. Nem terminou o percurso naquele dia, e voltou para casa bem chateado.
Mas foi recompensado. Ela, que se sentiu muito feliz por ser notada (apesar de surpresa e envergonhada pela inesperada iniciativa), encheu-se também de coragem. E, no dia seguinte, ao cruzarem-se no mesmo local (ele, evitando olhar para ela, com vergonha também), ela falou um sonoro e alegre ?oi?. Ele, surpreso, respondeu bem baixinho, quase inaudível, o que fez com que ela ficasse tão vermelha quanto ele, e sorrisse acanhada. Mas é claro que, naquele dia, os dois voltaram para suas respectivas casas com uma esperança quase juvenil em seus corações.
Durante as outras duas semanas (continuando a se encontrar todos os dias), os ?ois? foram bem sonoros e sorridentes. Mas não passavam disso.
Até que, num belo dia, ele não foi correr.
Ela passou o restante do dia preocupada. ?Será que aconteceu alguma coisa com ele? Será que ele está fazendo um outro caminho??, perguntava-se, além de outros ?serás? que são típicos dos inseguros.
Mas no dia seguinte, ele apareceu. Ela parou (não exatamente ?parou?, mas corria no mesmo lugar), e perguntou ?o que aconteceu??. Ele respondeu que ?fiquei gripado, mas já estou melhor?. Trocaram mais algumas palavras, e cada um seguiu seu caminho.
A cada dia, trocavam cada vez mais palavras. Evoluindo para frases, parágrafos inteiros. Mas sempre ?correndo parados? no mesmo lugar. E depois, separavam-se, e cada um seguia o seu caminho.
Até que, depois de duas semanas, ela tomou coragem novamente, e perguntou se ?poderia acompanhá-lo na corrida??. E ele disse um ?claro, com todo o prazer? tão cheio de alegria que provocou risos dela e, logo em seguida, dele mesmo.
Agora, corriam todos os dias lado a lado (após encontrarem-se na já famosa praça). Trocavam conversas já bem maiores. Parágrafos, textos, contos, um livro inteiro por dia. E, de semana em semana, além de conhecer melhor um ao outro, emagreciam cada vez mais. Afinal, corriam todos os dias, e não perdiam esse momento por nada no mundo. Não tanto por amor ao atletismo propriamente dito, mas ao amor que nascia e crescia dentro de cada um deles. Depois de mais algum tempo, já não eram dois gordinhos correndo, e sim duas pessoas bem enxutas e dentro dos padrões de beleza impostos pela sociedade: podiam ser chamados de ?em forma?.
Saíam para correr mais cedo, voltavam mais tarde. E, de um ?tomou coragem? para outro (ele uma vez, ela na outra, revezando-se involuntariamente sempre), as coisas foram evoluindo: um convite para jantar, uma saída para o cinema, um pedido de namoro. Conhecendo os pais, saindo junto com amigos, encontravam-se cada vez mais fora da corrida. E, conseqüentemente, corriam cada vez menos.
Casaram-se. Depois de três anos, eles já têm dois filhos. Não correm mais há muito tempo.
E tornaram-se dois gordinhos muito felizes.


BANHEIRA QUENTE

Deixou tudo preparado.
A banheira quente, como em quase todos os banhos que costumava tomar.
A melhor roupa, aquela que mais gostava, que tinha um xodó mesmo, e só usava em ocasiões especiais.
O melhor perfume, que costumava usar quando queria impressionar alguém. Quantas mulheres não se jogaram aos seus pés, não elogiaram e cheiraram aquele perfume, que considerava tão especial?
O cheiro do sabão para banho. O rádio tocando Radiohead. Aquele vapor de água quente. Tudo no seu devido lugar, tudo perfeito.
O facão já estava em sua mão. Era a faca que seu pai usava nos famosos churrascos de sábado, e que sempre dizia para ?tomar cuidado, filho, essa faca corta a carne a até a tábua de carne?. Esse ?tomar cuidado?, no seu pensamento, tornou-se uma estranha ironia.
Cortou o primeiro. Doeu um pouco, mas não precisou se esforçar muito (a faca era realmente boa). Colocou a outra mão dentro da água quente, e cortou o segundo pulso. Foi mais fácil ainda, pois a água quente diminuía a dor, e tornava o ato de cortar quase prazeroso.
Sua cabeça parecia girar, com a mente flutuando longe. Não era por causa do sangue, que saía constantemente e manchava a água de vermelho. Nem por causa das drogas que tinha usado há dois dias atrás (seu nariz ainda coçava, e as picadas ainda estavam lá). Era aquela montanha de coisas que pensava no momento.
Era estranho como as coisas pequenas pareciam enormes agora. Pensava naquele banheiro, em toda a sua alma e seu corpo entregues para o nada. Quem será que estaria no seu velório? Quem choraria por ele? Ele fez as piores coisas com as pessoas que mais gostava. A vida inteira foi assim. Talvez, porque queria que todo esse mal voltasse para si mesmo. Sabia que era um covarde, e odiava muitas coisas, mas principalmente a si mesmo.
Ouviu dizer que Deus não perdoava os suicidas, e quis saber se era verdade. Por isso, foi numa igreja no dia anterior, durante uma missa. Não encontrou a resposta, mas descobriu que não procurava uma resposta de verdade, pois tinha consciência de que não acreditava naquilo tudo. Talvez, se acreditasse, não chegaria naquele ponto, e teria forças para lutar. E, por isso mesmo, quis continuar não acreditando.
A música já soava indistinta nos seus ouvidos. Por quanto tempo estava ali? Dez minutos? Uma hora? Já não sabia distinguir. E, apesar da água quente, começava a sentir um pouco de frio. Devia ser a perda de sangue, e a água, mais vermelha do que nunca, só vinha confirmar isso.
A visão já não funcionava muito bem. Não conseguia ver a palidez nos seus braços, nas suas pernas debaixo d?água. Sentia sono e cansaço. Lutou para não dormir, para aquele momento de pouca vida durar um pouco mais. Não sabia porque lutava. Devia ser o instinto, ou talvez não quisesse realmente aquilo. Mas já não havia volta, não conseguia pensar, muito menos falar ou pedir ajuda.
Desistiu de lutar contra o sono. Tudo começou a escurecer, os olhos se fecharam.
E esses olhos fechados nunca mais se abriram, e nunca mais viram a luz.


HOSPÍCIO

Ou

TRAMA DIABÓLICA


Ela estava no hospício há três meses. E não sabia por que estava ali.
Seu documento de identidade (uma das únicas coisas que eram só suas lá dentro) indicava que seu nome era Dora, mas esse nome não era nada familiar, não se lembrava de nada antes dos três meses que passou com aquelas pessoas estranhas. Algumas poucas imagens sem sentido vinham-lhe na memória, mas apenas um pouco antes dos remédios. Esses a deixavam atordoada, sem conseguir raciocinar, e as imagens sumiam de sua mente. Mas, mesmo assim, sabia que não fazia parte daquele mundo.
Foram três meses vivendo as mesmas coisas, o mesmo atordoamento. Mas aquele dia era diferente.
Estava na sala de espera, aguardando uma visita que não sabia quem era. Naquele momento, estava lúcida e determinada a descobrir seu passado, para ficar longe daquele terrível manicômio e viver uma vida normal.
- Ele está chegando - disse a enfermeira.
Sendo segurada no braço pela enfermeira, levantou-se. E o que viu foi muito mais do que um choque para ela. Um homem alto e ricamente vestido. No momento em que o viu, reconheceu-o como seu marido.
E toda a sua vida passou-lhe pela cabeça: seu nome era Margarida, casada com Rodolfo, o homem que estava à sua frente.
Mas o sorriso que havia acabado de surgir em seu rosto rapidamente se evaporou, pois reconheceu também a mulher que estava ao lado de Rodolfo: Arlete. E o pior: lembrou-se do que aconteceu antes de chegar ao hospício.
O marido, a quem tanto amava, e Arlete, sua melhor amiga, juntos em sua própria cama. Isso foi suficiente para um desmaio, e logo depois acordar em um manicômio.
Todos esses momentos vieram à sua cabeça antes de Rodolfo dizer: ?Como vai, Dorinha? Minha irmã querida!?.
Isso foi o suficiente para Margarida, tomada de fúria, desvencilhar-se da enfermeira (que segurava seu braço) e avançar contra Rodolfo, gritando. Mas a enfermeira foi mais rápida, e segurou-a antes que pudesse alcançá-lo. E, antes que pudesse dizer ou fazer mais alguma coisa, foi rapidamente amarrada e amordaçada.
Rodolfo então se virou para o médico que estava ao seu lado e disse: ?Acho que minha irmã não tem salvação, doutor. Creio que ela ainda acha que é minha esposa! Por favor, faça o possível para ajudá-la?. Nem bem terminou, Rodolfo já se dirigiu para a saída, acompanhado de Arlete.
Margarida estava confusa: foi tudo realmente uma grande armação dos dois para afastá-la de tudo ou estava realmente louca? Mas tinha certeza que seu nome era Margarida!
E toda essa confusão, misturada com o efeito de três meses de medicamentos, teve um efeito realmente decisivo. Ela realmente ficou louca. E Margarida (ou Dora?) nunca mais seria a mesma.


A INTELECTUAL

A Martinha era uma mulher que todos queriam. Linda, independente, bem sucedida profissionalmente e incrivelmente inteligente, realmente uma intelectual. Muitos haviam tentado, poucos conseguiram se aproximar, mas nenhum tinha sido bem sucedido. Quem diria que o Burrão conseguiria?
O Burrão era o Júlio. Mas muitos nem sabiam o seu nome, pois chamavam de Burrão mesmo. Gente boa, mas burro que nem uma porta. Quando diziam isso pra ele, ele perguntava ?por quê? A porta é burra também? A do shopping acho que não, ela abre e fecha quando a gente passa!?.
Ninguém conseguia entender. Num belo dia, todos no bar (e ela, como sempre, no canto dela, sem dar bola pra ninguém.). O Burrão foi lá, conversou (sabe-se lá o quê quais foram as burrices que ele disse) e ficou, foi para o apê dela na mesma noite.
Isso já faz dois anos. O Burrão continua cada vez mais burro (gente boa e muito feliz, mas burro), a Martinha cada vez mais bonita e bem-sucedida. Um belo dia, perguntaram para a Martinha o porque, e ela respondeu:
?- Ele me faz rir!?
E todos se perguntaram se o sonho de consumo dela seria o Ari Toledo, Juca Chaves ou o Costinha.


O GRANDE EUCLIDES

Era muito pacata aquela pequena cidade do interior. Qualquer pequeno evento social envolvia a cidade inteira. Mas nada agitou tanto aquela cidade do que quando o velho Guga anunciou o retorno de Euclides.
Foi numa quarta-feira à noite, no baile semanal do clube. O velho Guga, o ancião mais sábio e respeitado da cidade (sua palavra era praticamente lei), e que quase nunca se pronunciava em público, subiu no palco, pegou o microfone e anunciou:
?- Quero contar com o apoio de todos vocês para realizar a maior festa que essa cidade já viu!? (uma porção de ?ooohhs? se espalhou pela platéia). ?Pois o filho mais ilustre da cidade estará de volta aqui, na semana que vem, após vinte anos (silêncio total): o grande... Euclides!!!? (aplausos efusivos).
A partir daquele pronunciamento, cada pessoa se encarregou de alguma tarefa para a festa: decoração, comes e bebes... Todos estavam exultantes com tão grande evento, e durante toda a semana não se falava de outra coisa. Mas todos ficaram com uma grande dúvida na mente.
Quem seria esse ?Euclides??
O incrível é que ninguém admitia que não sabia desse detalhe (afinal, seria uma vergonha não saber quem era ?o grande Euclides?). Os maridos não questionavam suas esposas (o inverso também não acontecia), os filhos não questionavam os pais. As poucas pessoas que perguntavam sobre o ?grande Euclides? recebiam como resposta um ?O quê??? Não sabe quem é o grande Euclides??? Que absurdo!!!?, e eram deixadas de lado.
Chegou, então, o dia da grande festa. Toda a cidade estava lá (menos o velho Guga, que ainda não havia chegado). O clube todo enfeitado, as pessoas com suas melhores roupas, cartazes de boas-vindas pendurados... Todos esperando, curiosos, a chegada do grande Euclides.
Mas as horas passam. E nada do Euclides chegar. Alguns começam a ficar aflitos: será que alguma coisa errada aconteceu? Mas não era possível que o velho Guga tenha se enganado!
Quando alguns já ameaçavam ir embora (só não foram mesmo porque a curiosidade era maior), chega então o velho Guga. E vai andando no meio das pessoas em silêncio, olhando para todos os lados com um ar de dúvida, em direção ao palco.
Como da outra vez, sobe ao palco, pega o microfone, mas faz uma pergunta que ninguém esperava: ?O que está acontecendo aqui????.
Alguém (corajoso) responde: ?o senhor nos disse que o grande Euclides estaria aqui hoje, Seu Guga! Fizemos essa festa para recebê-lo!?. E o velho Guga respondeu:
?- Mas que besteira! Nunca falei sobre nenhum Euclides, mesmo porque essa pessoa não existe!? (grandes ?ooooohhhs? se espalham pela platéia). Eu falei sobre o retorno do grande Melquíades!!! E ele estará aqui só na próxima semana!
E uma salva da ?aaaaahhhs? foi dada. As pessoas, arrumando tudo que tinham organizado, perguntavam-se como podiam ter feito uma festa para alguém que não existia (que tolice!), e no dia errado (como pode?). E prometeram, na semana seguinte, fazer uma festa de boas-vindas ainda maior.
Mas ainda não havia uma única pessoa que ao menos suspeitasse quem poderia ser o grande Melquíades.


A MULHER DA MINHA VIDA

Gerlândio estava sozinho naquela festa. Com um copo na mão, observava tudo e todos.
Em um instante, teve uma visão tão impactante que quase derrubou seu copo. Foi quando ela entrou na sala onde Gerlândio estava.
Ela não era a mais bonita da festa. Havia outras mais bonitas que ela. Mas ela exalava simpatia, e tinha um sorriso que, como pensou Gerlândio, ?iluminava sem precisar de luz?.
Gerlândio teve uma sensação muito especial. ?Essa é a mulher da minha vida?, pensou. E ficou imaginando como seria a sua vida com aquela mulher.
Imaginou como seria a sua futura sogra (com o rosto parecido com o da filha, só que com rugas e uma grande e peluda verruga na ponta do nariz). Ele assistindo ao jogo com seu sogro, que torceria para o Palmeiras (e Gerlândio, para o São Paulo). Imaginou os filhos que teria, com a sombrancelha grossa do pai (ele mesmo, é claro) e o nariz um pouco grande da mãe (que Gerlândio adorava).
Foi nesse momento que um homem entrou na festa, e deu um beijo na boca da mulher da sua vida. Eram namorados, claro.
Nessa hora, Gerlândio resolveu sair da festa, e ir para casa assistir a um filme (pornô, por sinal). Não era o seu dia de sorte.
Afinal, já era a terceira mulher da sua vida que perdia naquela noite.


O MONSTRO DO ARMÁRIO

Valdo já tinha trinta e oito anos. Mas, apesar disso, já estava há duas semanas sem conseguir dormir, por causa daquele maldito livro, que descrevia um armário idêntico ao do seu quarto (até os detalhes das fechaduras), e também o terrível monstro que havia dentro dele.
Passava a noite inteira na sua cama, coração palpitando, olhando para o armário. Pensava: ?que besteira, é apenas um livro...?, mas não conseguia nem fechar os olhos.
Tentou até dormir na sala, mas o pensamento de que o monstro desceria as escadas e iria atrás dele o afligia ainda mais do que dormir no quarto (pois, da cama, conseguia ao menos vigiar o armário).
Até o dia em que, num acesso de fúria, causado pelo desgaste de várias noites sem dormir, entrou dentro do armário.

Final 1: E, lá dentro, Valdo dormiu como um bebê.

Final 2: E nunca mais foi visto.

PS: por favor, ignore o ?Final 2?, não quero que ninguém fique sem dormir por causa desse conto...


O ENGANO DE BETH

Ou

FERNANDINHO

Era o dia em que Fernandinho ia voltar.
Foram quatro meses que Fernandinho passou na França, a trabalho. Ele e Beth estiveram durante quatro anos juntos, e só não ficavam realmente juntos quando Fernandinho viajava. Mas Beth esperava ansiosamente, e quando ele voltava era uma festa que só vendo. ?Os dois realmente se amavam muito?, diziam os amigos.
Mas aquela viagem foi diferente para Beth. Pois apenas um mês após se despedir de Fernandinho no aeroporto, Beth recebeu a fatídica carta. Dizia: ?encontrei outra pessoa, estou apaixonado. Não me procure mais. Volto no dia combinado para pegar minhas coisas. Luís?.
Beth chorou durante três dias.
Ele assinou com seu primeiro nome (claro, seu nome era Luís Fernando), e não como ?Fernandinho?, que era como sempre fazia. E o pior, pensou Beth: ?trocou-me por uma mulher que nem toma banho! (?afinal, as francesas não tomam banho? ? lembrou Beth).
Depois daqueles três dias, Beth fez de tudo para esquecer o amor por Fernandinho. Saía com as amigas, encontrava-se com outros homens. Tornou-se uma pessoa mais firme, decidida, fria e independente, dona de seus sentimentos. E, nos dois meses que se seguiram, esqueceu realmente (quem diria?) de Luís Fernando (já nem pensava mais nele como ?Fernandinho?).
Agora, Luís Fernando estaria de volta, para buscar o que havia deixado. Beth estava firme, imponente, dona de si: tinha certeza de que não voltaria a amá-lo.
A campainha toca. Beth abre a porta, e dá um sorriso de satisfação ao ver Luís Fernando, pois confirmou consigo mesma que já não sentia mais nada por ele.
Fernandinho entrou correndo, abraçando e beijando Beth, como fazia sempre que voltava. Ela repeliu-o, empurrou-o, dizendo: ?cara-de-pau! O que você quer? Esqueceu a carta?? ? no qual ele respondeu: ?Que carta??.
Beth expulsou-o de casa. Seus pertences já estavam separados, e Fernandinho saiu aos prantos, inconsolável. E Beth, tomando o envelope da carta impressa em mãos, verificou que o destinatário era uma tal de Cida, que morava no mesmo número sessenta e dois, mas no prédio ao lado.
Mas Beth tinha certeza que, depois do que tinha passado, nunca mais voltaria a amar Fernandinho.
E Beth chorou por mais três dias.


INSÔNIA

Há quatro dias que Otávio não conseguia dormir.
Nada aconteceu de diferente. Não estava preocupado demais, nem estressado demais... Apenas deitava na cama durante quatro dias seguidos, sem pregar os olhos por um só momento.
Já estava imaginando: como poderia trabalhar no dia seguinte? Estava esperando por aquela promoção, que traria tantas coisas boas (além de um salário bem melhor), será que era por isso que não conseguia dormir?
Naquele mesmo dia ele viveu feito um zumbi, pois não conseguia pensar nem agir do modo que precisava, e teria que tomar uma atitude. Remédio, chá, leite morno: nada havia resolvido.
E, naquela noite, tomou uma decisão: ?Viverei sem dormir! Se não consigo, é porque não preciso! Vou usar a madrugada para escrever aquele livro que eu tanto queria!?.
Com esse pensamento, Otávio ligou o computador. Não deu outra: dormiu sentado na cadeira, cabeça apoiada no teclado. E acordou com tanta dor no pescoço que não pôde trabalhar no dia seguinte.
E, como toda história que se preze, perdeu a sua querida promoção para o cara mais puxa-saco da empresa.


quarta-feira, janeiro 24, 2007


ALÔ? TEM ALGUÉM AÍ?

Não sei se alguém lerá isso, mas... Se alguém tiver curiosidade, depois de alguns anos sem postar, verá, a partir desse post, alguns contos novos e completos. Uns no estilo "eletrochoque" de sempre, outros em estilo totalmente diferente! Não sei se vão gostar de todos, mas... Por um motivo ou por outro, EU GOSTEI!!! Então, seguem a partir desse ONZE contos novos...
Divirtam-se! (Ou não)

PS.: Se alguém ler, por favor, deixe seu comentário!!! Isso pode me fazer voltar a escrever como antes, quem sabe?!?


quinta-feira, fevereiro 26, 2004


O ASSALTO

Um senhor, muito bem vestido, de aparência distinta, entra numa loja de roupas, que fazia parte de uma grande cadeia de lojas de roupas, e se dirige à jovem moça que se encontra no caixa.
- Bom dia! Em que posso lhe ser útil? - diz a moça.
O senhor dá um sorriso acolhedor, e diz:
- Bom dia! Eu preciso de um favor seu.
- Pode dizer! Estamos aqui para serví-lo.
- A senhorita poderia me passar todo o dinheiro que possui no caixa?
- Como? O senhor pode repetir? Acho que não ouvi muito bem... - respondeu a moça, confusa.
- Me passe o dinheiro que está no caixa, por favor?
A garota tomou um susto. Como poderia imaginar que aquele senhor seria um assaltante?
Mas, antes de tomar qualquer atitude, parou e verificou melhor a situação. O homem à sua frente tinha suas mãos à mostra, e não possuía nenhuma arma. Nada indicava como aquele senhor obrigaria a garota a atender o seu pedido. E ele ainda continuava com um sorriso tranquilo no rosto.
- O senhor está louco?
- Não, não estou - disse o homem. Isso é um assalto, me dê o dinheiro que está no caixa.
- E o senhor vai me obrigar a fazer isso?
- Não.
- Então não darei dinheiro nenhum!
- Mas estou pedindo por favor, me dê todo o dinheiro...
- Olha aqui, o senhor já está me importunando demais. Quer se retirar da loja, por favor? Deixe de brincadeiras, um senhor da sua idade!
- Isso é um assalto, estou lhe dizendo, me dê o dinheiro!
- Saia daqui, ou vou chamar os seguranças!
- Não saio enquanto você não me entregar o dinheiro.
Nisso, a garota chamou os seguranças, que deram alguns leves sopapos no homem, e expulsaram-no da loja.
O homem era um advogado. E entrou com um processo no mesmo dia contra a loja.
Ninguém acreditou nas palavras da jovem moça do caixa. Como aquele senhor, renomado advogado, com um currículo e formação acadêmica invejáveis, ilustre pai de família, iria entrar numa loja, desarmado, dizendo que era um assalto e queria o dinheiro do caixa?
O bem-vestido senhor ganhou o processo, e duzentos mil reais (sem dúvida, muito mais do que havia no caixa naquele dia) se transferiram dos cofres da loja para os bolsos daquele homem.
E esse foi o maior assalto que uma loja de roupas já sofreu.


segunda-feira, janeiro 12, 2004


Acordou, depois de uma tumultuada noite de sono. Tivera inúmeros pesadelos, mas não se lembrava deles. Apenas sabia que tivera um sono inquieto.
Mas o maior pesadelo teve quando acordou.
Estava num lugar totalmente fechado, onde não tinha espaço para se mover. Escuro, cheiro de madeira, parecia uma caixa.
Ou um caixão.
Era confortável, bem acolchoado. Mas conforto, de verdade, era uma sensação que não conseguia sentir ali. Havia também um vidro, na altura dos olhos. Por ali, enxergava algumas flores, o teto branco. Só.
Ouvia algumas vozes. Murmúrios, lamentos, indefiníveis, por causa da espessaura da madeira. Pessoas chorando? Lamentando a sua morte?!?!
O desespero tomou conta dele. Tentava, mas não conseguia se debater direito, seu braços quase não possuíam mobilidade. Começou a gritar. Desesperadamente. Chamou por socorro. "Tirem-me daqui, estou vivo!". Mas não via nenhuma reação do lado de fora.
Um rosto se aproximou do vidro. Tinha um fino véu negro na frente, e ele reconheceu a imagem assim que o véu foi afastado para o lado: sua mãe.
Com a morte de seu pai antes de seu nascimento, sua mãe era a única pessoa que tinha cuidado dele. Tudo que havia aprendido, todo o carinho recebido quando criança, devia tudo a ela.
E vê-la, daquela maneira, fê-lo estremecer. Os olhos dela estavam completamente vermelhos. Olhava para o vidro com uma mistura de carinho, ternura e sofrimento. Dizia coisas como "não acredito que isso aconteceu", "meu pequeno", "por que tanto sofrimento". E chorava.
Ele, dentro do caixão, continuava gritando. Agora, chorando também. Queria mostrar para a mãe que estava ali, que ele não tinha morrido. Mas nada adiantava.
Sua mãe se retirou. Ele já não sabia o que fazer. Será que havia morrido mesmo? Mas ainda se mexia, tinha todas as sensações de um ser vivo! Será que a morte seria assim?
Um outro rosto surgiu no vidro: sua noiva. A pessoa que amava, com quem tinha passado momentos tão maravilhosos, com quem iria casar, estava à sua frente, chorando sua morte. Via as lágrimas pingando no vidro, vindas de um pranto silencioso.
Naquele momento, o caixão foi erguido. Ele percebeu que estava sendo levado para fora, via o céu nublado, sentia o movimento de estar sendo carregado por pessoas, sendo colocado num carro ou carroça, e sendo carregado por pessoas novamente.
Sabia que, durante um tempo, estava sendo realizada a cerimônia de um enterro. Ainda ouvia, um pouco mais distante, os lamentos que ouvira antes.
Percebeu que o caixão onde estava foi colocado num buraco. Viu a terra sendo jogada em cima, até cobrir o vidro por onde via alguma coisa, por onde havia ainda alguma luz. Seria este o fim?
Sua mãe e sua noiva ainda ficaram ali, por alguns minutos, mesmo após todo o caixão ter sido coberto de terra.
Então, suas feições mudaram. Ficaram sérias, rígidas. Sua mãe pegou na mão de sua noiva e, já caminhando em direção à saída, disse:
- Vamos embora. A essa hora, ele já deve ter morrido realmente.


segunda-feira, dezembro 22, 2003


INFELIZ NATAL

- Pai!
- zzzzblestobenhofendurgenzzzz...
- PAI! Acorda!
- Hã? Quê? Filho! Eu já não falei que tem que esperar até de manhã pra abrir os presentes? São três horas da madrugada!
- Mas eu tô ouvindo um barulho lá embaixo, pai... Acho que tem ladrão!
- Ladrão? Ah, é uma boa hora pra eu estrear minha espingarda de caça... Esse maldito vai ver só!
Pai e filho desceram até o segundo degrau da escada.
- Pai! Olha lá! Tem mesmo alguém ali! - disse o menino, sussurrando.
- E olha o saco que ele tem nas costas! O filho da mãe já deve ter roubado muita coisa...
- Ele tá na árvore, roubando meus presentes, pai! Atira nele! Atira!
- PARADO AÍ, SEU FILHO DA MÃE!!!
PÁ! PÁ!
E o suposto bandido cai moribundo no chão. Pai e filho se aproximam do infeliz.
- Pai, que estranho esse cara! Olha a roupa dele!
- Estranho mesmo! Ele deve ter uns setenta anos, e ainda fica assaltando casas em pleno natal...
- Pai...
- Olha o saco dele! Já deve ter assaltado uma porção de outras casas...
- PAI!!!
- Que foi, filho?
- PORRA! VOCÊ MATOU O PAPAI NOEL!!!
- ...
- ...
- E AGORA, PAI?
- Vamos pendurar ele na árvore, lá fora.
- A GENTE NÃO PODE FAZER ISSO, PAI! ELE É O PAPAI NOEL!!!
- Ninguém vai perceber, todo mundo vai pensar que é um boneco...
E, a partir dali, todos que passavam em frente elogiavam o enfeite, aquele Papai Noel, em tamanho natural, pendurado na árvore. Pai e filho ganharam até um prêmio em dinheiro pela autenticidade e originalidade do adorno.
Só reclamavam da palidez daquele Papai Noel, e do mau cheiro que ele exalava. Mas, enfim, com o prêmio em dinheiro, pai e filho não se importaram muito de terem assassinado o bom velhinho. E todos ficaram felizes...

FELIZ NATAL PARA TODOS!!!


segunda-feira, dezembro 15, 2003


O DIA DE MURPHY (OU NÃO)

Marcos estava desolado.
Seu dia havia sido péssimo. Brigou com a esposa a manhã inteira. Ao tentar ligar o carro, viu que não funcionava, e teve que ir ao serviço de ônibus.
Por conta disso, chegou tarde, e atrasou uma reunião importantíssima, junto com o presidente da empresa. Passou vergonha, pois estava abalado, e não dizia coisas que possuíssem algum sentido. Terminou por atrapalhar o fechamento de um contrato importantíssimo, e ouviu de seu chefe, logo a seguir, que seria demitido.
Recebeu duas ligações: a primeira do seu mecânico, dizendo que o motor estava extremamente avariado, talvez seria necessária a troca (e fazia uma semana que havia terminado a garantia). E a segunda de sua esposa, dizendo que iria para casa de sua mãe com as crianças, e iniciaria um pedido de divórcio, junto com seu irmão (cunhado de Marcos, advogado competente e de renome).
Não aguentava mais. Pegou o ônibus errado para voltar para casa, e teve que caminhar por oito quilômetros, de terno e gravata, sob um calor de trinta e seis graus. E, depois de um dia estafante desses, não conseguia pensar em mais nada, a não ser tomar um banho e assistir ao noticiário da noite.
Chegou em casa. Não conseguiu tomar banho, pois o chuveiro, mesmo desligado, dava choques. Mas, pelo menos, sentaria ao sofá e assistiria TV, nada poderia dar errado nisso.
Pegou o controle, apertou o botão. Nada. Apertou de novo. Nada. Mais uma vez, mais forte. Nenhuma reação. Repetidas vezes, desesperado. Nem uma luz.
Aquilo foi a gota d'água. Correu loucamente, dando voltas ao redor de si mesmo, pela casa. Gritando com toda a força de seus pulmões. Seus olhos já não eram humanos, e a baba escorria de sua boca.
A porta do banheiro estava aberta, ao final do corredor. Avançou velozmente, de cabeça baixa, naquela direção.
O espelho do banheiro estourou com força. Estilhaços voaram, e Marcos caiu no chão com o impacto. Morreu sozinho, com dores insuportáveis, quinze minutos depois.
Seu corpo só foi descoberto quando sua esposa retornou com as malas, para pedir-lhe perdão. Ela ainda teve tempo de receber as ligações do chefe de Marcos, dizendo que estava readimitido, que tudo não era nada mais que um mal-entendido, e de seu mecânico, informando que o problema do carro era só a mangueira do combustível.
E já chorando, aos prantos, culpando-se pelo suicídio do marido, constatou ainda mais um fato.
O controle remoto estava sem pilhas.


sexta-feira, novembro 28, 2003


A SURPRESA QUE VEIO

Tenho outro blog.
Esse aqui continuará para os contos. O outro servirá para besteiras, loucuras e afins.
Podem visitar e comentar, suas presenças serão bem-vindas.

O OUTRO

Ah, e no outro também avisarei quando novos contos forem postados aqui.
Até o próximo conto.


quarta-feira, novembro 12, 2003


RECESSO

Paro por tempo indefinido. Não aguento mais.

Mas surpresas virão.



segunda-feira, novembro 10, 2003


CURTAS


DESCULPA (Inspirado nas desculpas da Thaís e na idéia do Ricardo)

- Desculpa eu ter feito aquilo, não foi por mal.
- Ah, nem esquenta, não precisa nem pedir desculpas por uma coisa dessas!
- Então desculpa eu te pedir desculpas por uma coisa que não precisava pedir desculpas.
- Pô, já falei que não precisa esquentar a cabeça, não precisa me pedir desculpas por esse monte de coisas!
- Tá bom, desculpa eu te encher.
- Caramba, não peça mais desculpas!
- Tudo bem, eu não peço mais, desculpa.
- Olha aqui! Se você continuar me enchendo o saco com essas desculpas, eu vou acabar fazendo besteira!
- Mas eu não fiz por mal, só queria que você me desculpasse, me arrependi...
- Cale essa maldita boca!
- Desculpa, é que eu...
- Cadê o meu revólver?


CELEBRIDADES

- Quem parece aquela pessoa ali?
- Humm... Bem... Parece o Jorge Gonçalves, o ator da TV.
- Ah, mais ou menos...
- E aquela mulher, parece com quem?
- Com a Zanira Dias, a cantora!
- É, lembra bem mesmo...
- E aquele cara ali?
- Putz, é a cara daquele que estão procurando... Sabe, aquele que matou uns trinta, e a polícia está que nem louca atrás dele?
- Nossa! Não é que parece mesmo? Só falta ele ter aquela cicatriz no queixo!
- Mas ele tem, dá pra ver daqui...
- Então é mesmo! É o maníaco!
- ...
- ...
- O que vamos fazer?
- Vou até lá.
- O quê? É loucura! O que você pretende fazer?
- Vou pedir um autógrafo.
- Você vai o quê???
- Se acontecer qualquer coisa, você cuida do Rex pra mim? Ah, e diga pra minha mãe que a amo.


quinta-feira, novembro 06, 2003


A TROCA - Final III

Albano viu uma cena que, por diversas vezes, poderia ter sido vista num espelho: ele, deitado na cama, abraçado com sua mulher.
Mas é claro que não era exatamente ele naquele momento, e sim Marinho usando seu corpo. Ficou estarrecido: como sua esposa poderia não reconhecer que outro homem usava seu corpo? Que não era ele ali, com ela?
O casal na cama olhou para Albano, que estava parado na porta. Marinho não ficou surpreso: tinha até um sorriso cínico nos lábios. Mas sua esposa, Dora, ficou espantada. Se escondeu nos cobertores até o pescoço, e gritou:
- Quem é você? O que faz aqui?
Albano ficou desconcertado. Não sabia o que dizer, o que fazer. Então, Marinho disse:
- É o nosso vizinho da casa ao lado, querida. O que você quer, Euclides?
Albano, depois de um pausa, finalmente respondeu:
- Você sabe muito bem o que eu quero! Quem é você para invadir minha casa, ficar com minha mulher, viver minha vida?
- Eu sou Albano! Eu é que pergunto o que você quer aqui! Está louco?
- Você sabe muito bem qual é a verdade, seu canalha! O que fez com minha mulher? - disse, apontando para sua esposa, deitada na cama.
E foi a vez de sua esposa responder:
- Sua esposa? O que eu tenho a ver com você?
- Mas, Dora...
- Quer saber o que meu marido fez? Passei uma das melhores noites de minha vida! Você está com falta de alguma mulher? É por isso que veio aqui dizer absurdos?
- Você ouviu o que ela disse - completou Marinho. Vai embora sozinho ou preciso lhe dizer onde fica a saída?
Albano ficou desconsolado. A melhor noite da vida de sua mulher foi com outro homem! Um estuprador! Já não sabia se tinha mais ódio de sua esposa ou de Marinho.
- Tente me tirar da minha casa, então!
Marinho se levantou, e partiu para cima de Albano. Marinho lutava melhor, mas o corpo de Euclides (ocupado por Albano) era mais forte. A luta foi dura, mas rápida, pois apenas um soco certeiro de Albano levou Marinho ao chão.
Mas, mesmo com a boca ensanguentada, Marinho começou a gargalhar. Albano, indignado, perguntou:
- Está achando graça em quê?
- Hahahaha! Acha que ganhou? Batendo em mim vai adiantar? Como será sua vida a partir de agora?
Albano viu que, no final das contas, havia realmente perdido. O que faria? Sua vida estava perdida. A mulher que amava não conseguia diferenciá-lo de um estuprador, um criminoso!
- Não sei como será a minha vida, mas a sua vida acabou agora! - disse Albano, sacando a arma e apontando para Marinho.
- Nãããoo! - gritou Dora, esposa de Albano, pulando da cama e correndo em direção a Albano.
Albano não conseguiu reagir. Mas, com a aproximação de Dora, seu dedo moveu o gatilho, disparando a arma e acertando o peito de Dora que, num espasmo de dor, foi ao chão, já morta, com uma bala no coração.
Depois de um breve silêncio, foi a vez de Marinho falar:
- Tsc, tsc... Veja o que você se tornou! Matou sua esposa! Agora sim, sua vida está acabada!
Albano estava com raiva de Dora. Mas, ao ver seu corpo inanimado no chão, se arrependeu, pois ainda era a mulher que amava. Agora, nem isso tinha mais.
Era tudo culpa de Marinho! Ele era o responsável pela sua desgraça!
Sem pensar duas vezes, apontou a arma para Marinho, disparando até quase descarregá-la, mesmo depois que Marinho já estava morto.
Foi quando ouviu o barulho de sirenes. A polícia! Estavam invadindo a casa ao lado, que era de Euclides. Certamente, descobriram que ele havia facilitado a fuga, e estavam atrás dele.
Albano já não tinha mais nada. Não poderia voltar para seu corpo, não tinha mais sua esposa. Viveria uma vida que não era sua. E, agora, seria prisioneiro, por facilitar uma fuga e por duplo assassinato.
Não tinha realmente mais nada. Olhou o revólver: apenas uma bala no tambor. Mas era o suficiente.
Assim que ouviu a porta sendo arrombada pelos policiais, colocou a arma em sua boca, e deu seu último disparo. E, nesse momento, terminava com uma vida, que já não sabia se era mesmo a sua.


segunda-feira, novembro 03, 2003


A TROCA - Final II

Sua esposa, sua querida esposa, estava amarrada na cama. Braços e pernas. Uma mordaça não deixava com que ela emitisse nenhum som, e, por mais que tentasse, não conseguia gritar.
Albano teve um choque por alguns segundos. Assim que voltou a si, correu em direção à cama, para soltar a esposa.
Nisso, foi agarrado por alguém, que o atacava pelo lado. Não conseguia ver, mas tinha certeza de que era Marinho, agora com o seu próprio corpo.
Apesar de Marinho lutar melhor, o antigo corpo de Euclides era bem mais forte do que o antigo corpo de Albano. Isso ajudou Albano, que conseguiu se desvencilhar de Marinho, empurrando-o para longe.
Teve uma sensação estranha ao ver seu corpo, agora ocupado por outra pessoa, atacando-o. Foi uma luta dura, mas curta, pois apenas um soco do forte corpo de Euclides fez com que Marinho fosse derrubado. E, com a boca ensanguentada, escostado na parede, começou a rir.
Albano não entende. Saca a arma, que estava no seu coldre, e, apontando para Marinho, pergunta:
- Do que está rindo, idiota! Quer apanhar mais?
- Hahahaha! Posso ter apanhado, mas vou sair ganhando, de qualquer jeito!
- Como assim?
- Saí do meu corpo! Não vou mais ser mulherzinha de prisão! Vou viver a vida de alguém, que tem dinheiro, respeito... Esse corpo deve ter sido seu, não é?
- Foi meu, e vai ser daqui pra frente!
- Tem certeza? E sua mulher, como fica?
Nisso, olha sua esposa, na cama. Percebe que está cheia de hematomas, arranhada, machucada. E, principalmente, assustada, sem entender nada do que se passava.
- O que você fez com ela?
- Já fiz de tudo que você possa imaginar... Aposto que, em um dia, ela teve mais experiências que em toda a vida de casada!
- Cale a boca!
- Hahaha... Sua mulher é muito gostosa mesmo, mas agora é minha!
Naquele momento, ouvem o barulho de sirenes lá fora. Vários carros de polícia chegam na casa ao lado, que era de Euclides. Pois a polícia, avisada por um telefonema anônimo, soube que Euclides foi o carcereiro que colaborou com a fuga dos prisioneiros.
Marinho diz:
- Olha só, quem diria... A polícia! E atrás de mim é que não deve estar!
- Mas... Como...
- Você acreditou no Cabeça? Ele é um traidor! Assim que eu tivesse o corpo de Euclides, se tudo tivesse dado certo, eu cairia fora daquela espelunca! Mas aposto que você ajudou-o a fugir, não?
- Sim, mas...
- Como você é idiota! A primeira coisa que ele fez foi, depois de estar em segurança, avisar a polícia de onde você estava!
- Mas eu tenho o endereço dele!
- Você ainda acha que é o endereço verdadeiro?
-...
- Você é burro mesmo! Além de corno... Sua mulher foi uma maravilha na cama! Assim que você for preso, vou aproveitar muito ela! Em quem vão acreditar, em mim ou em você?
Euclides não tinha mesmo saída. Estaria para sempre preso naquele corpo, sem poder voltar à sua vida real.
Mas a raiva se apossava dele, naquele momento. Não conseguia mais raciocinar. E, ao ver Marinho, encostado na parede e rindo, não pensou duas vezes: deu três tiros no que era seu antigo corpo, à queima-roupa. Não sabia atirar, mas um dos tiros encontrou a cabeça de Marinho, causando morte instantânea.
Entretanto, a polícia, ouvindo os tiros, invadiu a casa. Euclides, com a raiva estampada em seu rosto, foi para cima de um dos policiais, despejando mais três tiros contra o mesmo. Mas não conseguiu atingir um segundo policial, que surgiu ao seu lado. Foi atingido por nove balas, em diversas partes do corpo.
Ficou vivo durante apenas quarenta segundos, deitado no chão, sem nem sentir as dores das balas que perfuraram o seu corpo. Apenas teve tempo para pensar no que sua esposa passou, e que sua vida, tão costumeiramente pacata e feliz, havia terminado naquele momento, e da maneira mais estranha e inimaginável que poderia haver.

ainda tem o terceiro...


sexta-feira, outubro 31, 2003


A TROCA - Parte VII

Albano acorda. Sente seu corpo diferente, aquela mesma sensação que havia sentido quando acordou no corpo de Marinho. Mas agora ele não fica desesperado, pois já sabe o que aconteceu.
Vê que está sentado numa cadeira, ainda dentro das paredes da prisão. Percebe que está de farda também: é o corpo de Euclides, o carcereiro. Sem perda de tempo, coloca em prática o plano.
Não conhece muito bem a prisão, mas consegue chegar até a cela onde se encontram Cabeça e, agora, Euclides num novo corpo.
Cabeça já havia agido: Euclides (no corpo de Marinho) de mãos e pés amarrados, com uma mordaça em sua boca, se debatendo na cama, com um olhar apavorado.
Assim que Cabeça e Albano se encontraram, Albano apenas fez um sinal de assentimento com a cabeça e, depois de algumas tentativas com as diversas chaves do molho que agora possuía, abriu a porta da cela.
Sem hesitar, Cabeça tira uma faca do bolso, e corta o pescoço de Euclides, que se debate ainda mais, por alguns segundos, antes de morrer. Albano se assusta, sente uma sensação estranha em ver aquele corpo, que um dia já foi seu, morto. Mas não sente pena de Euclides, que não hesitou em surrá-lo nas poucas vezes em que se encontraram.
Cabeça, então, diz as primeiras palavras:
- Mê de as chaves e siga o seu caminho. Tome o meu futuro endereço (e entrega um pedaço de papel para Albano). Quando quiser voltar novamente para seu corpo, saberá onde me encontrar. Agora vá!
Albano sai andando em direção ao portão principal. Cumprimenta os guardas que ali estão, e se dirige ao estacionamento, pois tinha as chaves do carro de Euclides no bolso.
Verificando o modelo do carro identificado pela chave, tem a sorte de acertar na primeira tentativa. Entra no carro, liga-o e sai em disparada, na direção de sua casa. E não quer nem imaginar o que Marinho possa ter feito com sua esposa.
Chega em vinte minutos. A porta da casa está aberta, e ele entra sorrateiramente, sem fazer nenhum barulho. Olha a sala, a cozinha: ninguém. Mas, quando anda em direção ao quarto, ouve alguns ruídos. Vozes, gemidos. Sem pensar duas vezes, invade o quarto abruptamente.
E a cena que chega aos seus olhos deixa-o completamente estarrecido. Estava preparado para tudo, menos para aquilo.

continua...


quinta-feira, outubro 30, 2003


A TROCA - Final I

Manhã do dia seguinte.
Aquele corpo, que era originalmente de Marinho, acorda. Começa a se debater, a emitir sons indecifráveis. As atitudes daquele corpo se tornam incompreensíveis. A troca teria dado errado? Teria o possuidor daquele corpo se tornado louco, perdido a sanidade?
Do outro lado, Albano acorda. Suas sensações são tão diferentes e estranhas que não consegue compreender o que é. Seu raciocínio já não é claro, não consegue pensar, só sentir. Consegue lembrar de que era Albano, mas não consegue entender o que aconteceu.
Abre os olhos. Sua visão é embaçada, turva. Não consegue ver cores ou profundidade. Mas sente o ambiente ao seu redor. Ouve centenas de sons num volume incrivelmente alto, e odores indefiníveis e diversos chegam até suas narinas.
Por um momento, mesmo sem raciocinar, compreende o horror de tudo. Percebe o que lhe aconteceu. Talvez, a própria morte seria melhor do que ter se tornado aquilo. Não conseguiria voltar mais para seu corpo original, e tudo que era seria esquecido.
Pois Albano havia se transformado no cachorro de Euclides.

Pra quem não gostou, vai haver ainda uma sétima parte, e esta com mais dois finais (melhores que este último, dependendo do ponto de vista). Até lá!


quarta-feira, outubro 29, 2003


A TROCA - Parte VI

Sem saída, Albano diz:
- Sim, concordo. Me diga apenas o que fazer.
- Está bem. Você vai seguir os mesmos passos do Marinho, mas espero que não aconteça nenhum imprevisto agora. Se tudo der certo, esta noite você já estará no corpo de Euclides.
Cabeça passou as instruções. Albano ouviu, e concordou em segui-las, pois não tinha realmente outra saída.
Era hora do banho de sol, à tarde. Alguns presos vinham fazer propostas a Albano, para servir como Marinho servia, já que ninguém sabia que eram duas pessoas diferentes. Mas Albano, orientado dessa forma por Cabeça, dizia que estava doente, para esperarem até amanhã. Os outros prisioneiros concordavam, já que Marinho era a "mulher" de todos de longa data, mas não teria escapatória se ficasse ali por mais um dia.
Viu Euclides, conversando com outro carcereiro, ao longe. Foi andando cautelosamente, mas sem chamar a atenção, até chegar bem perto de Euclides. Havia alguns cabelos nos ombros da camisa dele, e Albano se apressou em pegá-los. Conseguiu pegar um fio, mas seu gesto foi percebido por Euclides, que virou bruscamente e disse:
- Oras, é você? O que você quer aqui? Quer tomar outra surra, desgraçado?
Deu uma violenta cotovelada no rosto de Albano. Chegou a quebrar um de seus dentes. Mas Albano não soltou o fio de cabelo que estava em sua mão. A dor já não importava muito, e agora não teria pena nenhuma de trocar de corpo com Euclides, e matá-lo depois.
Acabando o banho de sol da tarde, todos voltaram para suas celas. Foi só aí que Albano se encontrou com Cabeça, e lhe entregou o precioso fio de cabelo, com que seria feita a tão esperada troca de corpos.
Cabeça começou a preparar algumas coisas. Algumas toalhas, objetos, alguns livros. Albano estava ansioso e curioso para saber como era feita, e atento a tudo o que se passava. Mas Cabeça disse:
- Bom, é hora de você ir dormir.
- Mas eu quero saber o que acontece!
- Não pode. Isso é um segredo que devo guardar comigo.
- Mas como vou voltar para o meu corpo real, depois?
- Não se preocupe. Assim que houver uma oportunidade, eu o procurarei e farei o que for necessário. Darei também a você o endereço de onde estarei, em todo o caso.
Albano ficou mais tranquilo. Mas precisou tomar um remédio que Cabeça lhe passou, para poder dormir. Cabeça disse:
- Você vai acordar de amanhã de manhã, assim como ocorreu da última vez. Você voltará aqui, me soltará, e dará as chaves das outras celas. Eu me encarregarei de soltar os outros presos, e você irá embora para resolver os seus problemas.
Albano concorda, pouco antes de cair em sono profundo. O dia seguinte seria extremamente agitado...

continua...


terça-feira, outubro 28, 2003


A TROCA - Parte V

- Que plano? - perguntou Albano.
- É simples. Vamos concluir o mesmo combinado inicialmente. Você vai trocar de corpo com Euclides, durante a madrugada, vai ajudar a me soltar e a boa parte dos prisioneiros que aqui se encontram.
- Soltar os prisioneiros? Mas eu não posso fazer isso! Se eles estão aqui, é porque têm os seus motivos! Você eu posso soltar, mas os outros não!
Cabeça apenas deu um sorriso. Resmungou algo como "idealistas!", e voltou a falar.
- Você não tem outra opção! As coisas podem ficar muito complicadas se você não fizer o que eu digo, e bem rápido...
- Ha! Não adianta nem tentar me ameaçar! Posso até morrer, mas não farei uma coisa dessas!
Cabeça, agora, gargalhou com vontade. Albano ficou espantado com aquela reação. Cabeça disse:
- Não seja ingênuo! Você nunca pensou em quem é a pessoa que usava o corpo que você está usando agora?
- ...
- Você já deve saber que o nome é Marinho. Mas sabe por que ele foi preso?
- Não, mas...
- Ele era estuprador, meu caro! Estuprador! Estuprava e matava suas mulheres com muito sadomasoquismo, meu caro! Estava condenado à prisão perpétua! E você já ouviu dizer sobre o que fazem com os estupradores na prisão?
- Sim...
- Pois bem. Ele se tornou a "mulher" de todos aqui. Ele não queria, mas foi obrigado. Ou isso, ou a morte, lenta e dolorosa. A mudança de corpo era uma saída para ele, um alívio. Não foi como o esperado, mas agora ele deve estar se dando bem. Você deve ter uma esposa, não?
Só então que Albano percebeu o rumo das coisas. Marinho, o estuprador, agora estava no corpo de Albano. Com sua mulher, na sua casa. Era certo que sua esposa perceberia que não era Albano de verdade, mas, para um estuprador, isso não faria muita diferença.
Agora seu desespero se tornou muito maior. Sua esposa corria perigo. É claro que tinha o enorme agravante de que, se não trocasse de corpo rapidamente, seria a "mulher" dos outros prisioneiros, e isso não era nada bom.
Não tinha muito em que pensar. Estava nas mão de Cabeça, agora seu companheiro de cela, e faria de tudo para mudar essa situação.
Cabeça, vendo a derrota no rosto de Albano, viu que era a hora certa de perguntar:
- E então, aceita os meus termos?

continua...


sexta-feira, outubro 24, 2003


A TROCA - Parte IV

- Pois bem. Vou contar como tudo aconteceu - disse cabeça.
Só naquele momento, Albano reparou em Cabeça. Era um homem com seus cinquenta anos, mas com todos os cabelos já brancos, normal, fisicamente falando, mas se diferindo no olhar penetrante e nos dois grandes brincos de argolas em suas orelhas. Sentando-se num banco, Cabeça pôs-se a falar.
"- Me chamam de Cabeça, devido à meus vastos conhecimentos culturais e do mundo em geral. Sou praticante de diversas culturas que verifiquei serem eficazes. Já viajei por diversos países. Mas também cometi muitos crimes, que não vêm ao caso, e é por isso que estou aqui, agora.
Já fugi da cadeia diversas vezes, de diversas maneiras. Até que me prenderam nesta prisão de segurança máxima, onde é praticamente impossível fugir.
Então, eu tive uma idéia, e precisaria da ajuda de Marinho para concluí-la. Uma das coisas mais significantes que aprendi, nessas minhas voltas pelo mundo, foi um ritual que uma espécie de cigano, em Cingapura, me ensinou, por ter salvo a sua vida. E, com um simples fio de cabelo, aprendi a técnica da substituição de corpos.
Este corpo mesmo não é meu original. Já tenho, na verdade, oitenta e três anos, e é bem provável que eu troque de corpo novamente assim que sair dessa prisão.
Marinho estava condenado à prisão perpétua, ou seja: não tinha nada a perder. Então, ele aceitou uma proposta que eu fiz.
Pegou um fio de cabelo, na hora do banho de sol, no pátio, na camisa do carcereiro Euclides. Com o corpo de Euclides, Marinho daria cobertura para minha fuga e para a de outros presos, e o próprio Euclides, no corpo de Marinho, seria morto, o que não causaria preocupação nenhuma aos guardas, pois todos os dias alguém morre nesta prisão.
Mas, por um infortúnio do destino, você encontrou Euclides naquele dia e, provavelmente, um fio do seu cabelo ficou preso na camisa dele. E foi justamente este fio que usamos para o ritual."
Albano escutou tudo aquilo, estupefato. Era incrível, inacreditável, mas era a única explicação plausível, e tinha que acreditar. Mas ainda estava desesperado com a situação.
- E agora? Como vou sair dessa?
- Não se preocupe, eu já tenho um plano...

continua...



quinta-feira, outubro 23, 2003


A TROCA - Parte III

- Euclides! Sou eu, Albano! Me ajude! - disse Albano.
- O que você está dizendo, desgraçado? Pensa que vai me confundir dizendo absurdos assim, Marinho?
- Sou eu, sim! Nós nos encontramos ontem, durante a manhã! Você estava de camisa azul, calça jeans...
- É assim, filho da p***? Tem gente trabalhando pra você lá fora, agora? Quero ver você mandar me seguirem de novo, canalha!
Euclides entrou na cela, de cacetete na mão. Um outro guarda dava-lhe cobertura do lado de fora da cela. Andando em direção a Albano, olhando em seus olhos, disse para o prisioneiro ao lado:
- E você, fique fora disso, Cabeça!
- Não tenho mesmo outra opção, Euclides...
E, apesar de tentar fugir, Albano tomou a maior surra de sua vida.
Terminando, Euclides guardou o cassetete, dizendo:
- Espero que isto lhe sirva de lição.
Quando Euclides já estava longe, Cabeça se aproximou de Albano, com uma expressão séria e levemente triste.
- Já entendi tudo, meu amigo. Você merece uma explicação, já que está inocente em toda esta história, e está aqui agora devido a uma terrível falta de sorte.
- Por favor... Cabeça é seu nome, não é?
- É assim que todos me chamam.
- Me conte o que está acontecendo, senão eu vou enlouquecer!

continua


quarta-feira, outubro 22, 2003


A TROCA - Parte II

Tentou gritar. Mas a voz não saiu. Não sabia o que fazer.
Estava na parte de baixo de um beliche. Ouviu um movimento vindo de cima, e um homem pulou de lá para o chão.
O homem parou na sua frente. Olhou para Albano, deu uma gargalhada e exclamou:
- Não é que o filho da p*** conseguiu?!?! Deu certo!!!
Albano não entendia nada. Ficou sem entender mais ainda, quando o outro homem se dirigiu a ele e disse:
- Devo supor que você é o Euclides, não?
- Euclides??? Meu nome é Albano!!! O que está acontecendo aqui? O que estou fazendo aqui???
O outro homem espantou-se. Olhou bem nos olhos de Albano, que se assustou e fez um curto movimento para trás, ainda na cama. O rosto do homem se tornou pensativo, desconfiado, e disse:
- É verdade, você não é o Euclides, mas também não é o Marinho. Como será que você veio parar aqui?
Albano ficou desesperado. Ele é quem deveria fazer essa pergunta, ele é quem precisava da resposta.
- Eu não sei! Só quero sair daqui! Me tirem daqui!
Nisso, ouviu uma voz do corredor, dizendo:
- O que está acontecendo aqui? Quem está fazendo essa algazarra toda?
Nisso, a voz foi se aproximando. Albano teve um novo espanto ao constatar que um carcereiro vinha em direção à sua cela.
E o carcereiro era Euclides, seu vizinho e amigo de infância.

continua...


terça-feira, outubro 21, 2003


A TROCA

O dia de Albano foi aparentemente normal.
Acordou de manhã, bem cedo. Fez sua higiene pessoal, tomou o café da manhã. Despediu-se da sua esposa e saiu para o trabalho.
Brigou com o cachorro do novo vizinho, que quase mordeu sua perna. E acabou conhecendo o novo vizinho, o Euclides, que por acaso foi seu amigo de infância. Se abraçaram, trocaram lembranças e prometeram conversar por mais tempo numa hora mais propícia.
Teve um dia de trabalho normal. A reunião com o novo cliente, a perspectiva de fechar um novo contrato. A correria, as brincadeiras, o stress. Tudo normal.
Chegou tarde em casa. Jantou uma maravilhosa sopa de legumes, fez amor com sua esposa, e dormiu. Tudo na mais perfeita tranquilidade.
Mas tudo mudou quando Albano acordou.
Abriu lentamente os olhos. Seu corpo estava estranho, duro. Ao espreguiçar, sentiu seu corpo mais forte, e menor. A cama mais dura.
Qual não foi seu espanto ao perceber as coisas à sua volta: um quarto pequeno, uma parede escurecida, um cheiro desagradável. E grades.
Estava numa cela de prisão.
Mas maior foi seu espanto ao ver uma tatuagem em seu braço direito, agora musculoso.
Estava num corpo que não era o seu.

continua...

This page is powered by Blogger. Isn't yours?